domingo, 15 de maio de 2011

Dificuldades de Aprendizagem



A aprendizagem integra quatro componentes cognitivas essenciais: o input (informação dos sentidos visual, auditivo e táctilo-quinestécico), a cognição (processos de atenção, memória, integração, processamento simultâneo e sequencial, compreensão, planificação e auto-regulação), o output (acções como falar, desenhar, ler, escrever, contar ou resolver problemas) e a retro-alimentação (repetir, organizar, controlar, realizar) (Fonseca, 2005)
As dificuldades de aprendizagem podem surgir em qualquer uma destas componentes cognitivas, podendo ser consideradas desordens neurológicas que interferem com a recepção, integração ou expressão da informação, caracterizando-se por uma acentuada discrepância entre o potencial e a prestação escolar da criança (Correia & Martins, 1999; Ribeiro & Martins, 2007, cit. por Vilar, 2010). Nesta designação de dificuldades de aprendizagem podem englobar-se várias desordens, que se expressam em dificuldades na aquisição, compreensão e utilização da informação ligada aos processos cognitivos associados à linguagem, como a fala, a leitura e a escrita, aos processos mentais de raciocínio e cálculo, e aos processos ligados a aptidões sociais (Melo, Ribeiro & Martins, 2007 cit. por Vilar, 2010).
As disfunções cerebrais que originam as dificuldades de aprendizagem podem ocorrer na recepção (problemas de processamento perceptivo e de captação de informação), na integração (problemas de retenção-memória, elaboração ou de rechamada), na expressão (problemas de ordenação, sequencialização, planificação e execução) ou na transferência ou tradução (transdução) entre os processos (Fonseca, 1984).
As crianças com dificuldades de aprendizagem apresentam um potencial intelectual dentro ou acima da média, sem perturbações auditivas ou visuais, estão motivadas para aprender e inseridas num processo educativo que se revela eficaz para a maioria (Fonseca, 2005). No entanto, podem apresentar dificuldades em diferentes tipos de aprendizagem: (I) simbólica ou verbal, em competências escolares ou académicas, como ler, escrever e contar; ou (II) não simbólica ou não verbal, em competências psicossociais ou psicomotoras, como orientar-se no espaço, desenhar ou interagir socialmente com o outro (Fonseca, 2005).
As dificuldades de aprendizagem incidem sobretudo nas aprendizagens simbólicas da leitura, escrita e matemática (Fonseca & Oliveira, 2009), envolvendo disfunções nos processos de recepção, integração, elaboração e retro-alimentação de informação, e também nos sistemas neurofuncionais da aprendizagem (Fonseca, 2005a, 2005b, in Fonseca & Oliveira, 2009), o que interfere com as aprendizagens escolares.


A definição, a que se atribui actualmente grande importância, é a elaborada pelo National Joint Committee on Learning Disabilities (NJCLD) e que afirma que:

“as dificuldades de aprendizagem é um termo geral que se refere a um grupo heterogéneo de desordens manifestadas por dificuldades significativas na aquisição e uso da audição, fala, leitura, escrita, raciocínio, ou habilidades matemáticas. Estas desordens são intrínsecas ao indivíduo, presumivelmente devem-se a disfunções do sistema nervoso central e podem ocorrer ao longo da vida. Problemas na auto-regulação comportamental, percepção social e interacção social podem existir com as dificuldades de aprendizagem mas não constituem por eles próprios uma dificuldade de aprendizagem. Embora as dificuldades de aprendizagem possam ocorrer concomitantemente com outras condições desvantajosas (handicapping) (por exemplo, dificuldades sensoriais, deficiência mental, distúrbios emocionais sérios) ou com influências extrínsecas (tais como diferenças culturais, instrução insuficiente ou inapropriada), elas não são o resultado dessas condições ou influências” (NJCLD; 1994, cit. por Correia, 2004).

Correia, em 2005, tendo por base as definições existentes, a investigação produzida e a sua experiência o mesmo autor, propôs a seguinte definição:

 “ As dificuldades de aprendizagem específicas dizem respeito à forma como um indivíduo processa a informação – a recebe, a integra, a retém, e a exprime, tendo em conta as suas capacidades e o conjunto das suas realizações. As dificuldades de aprendizagem específicas podem, assim, manifestar-se nas áreas da fala, da leitura, da escrita, da matemática e/ou resolução de problemas, envolvendo défices que implicam problemas de memória, perceptivos, motores, de linguagem, de pensamento e/ou metacognitivos. Estas dificuldades, que não resultam de privações sensoriais, deficiência mental, problemas motores, défice de atenção, perturbações emocionais ou sociais, embora exista a possibilidade de estes ocorrerem em concomitância com elas, podem, ainda, alterar o modo como o indivíduo interage com o meio envolvente.” (Correia, 2005, cit. por Oliveira, 2010).

CARACTERÍSTICAS DAS CRIANÇAS COM DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM (DA)

As crianças com dificuldades de aprendizagem podem manifestar uma combinação de habilidades e dificuldades que afectam o processo de aprendizagem.
Estas dificuldades podem surgir;
ü  atenção voluntária e concentração;
ü  velocidade de processamento simultâneo e sequencial da informação visual, auditiva e táctilo-quinestésica;
ü  discriminação, análise e síntese perceptiva;
ü  memória a curto prazo;
ü  cognição; expressão verbal;
ü  a nível psicomotror (Fonseca, 2005).

Estas crianças podem ter dificuldades na aquisição de algumas competências, podendo adquirir outras rapidamente (Nielsen, 1999, cit. por Fonseca, 1984).

Araujo e Cuozzo, em 2003, na prática identificam algumas características comuns nas crianças com DA:
ü  alterações e dificuldades perceptivas;
ü  dificuldades na habilidade manual e alterações da escrita,
ü  desajustes tónico-posturais na actividade gráfica;
ü  problemas na organização espácio-temporal;
ü  capacidade criativa limitada;
ü  dificuldade em expressar as suas ideias;
ü  problemas afectivos;
ü  como baixa tolerância à frustração;
ü  dificuldade em esperar pela vez;
ü  baixa auto-estima;
ü  dificuldades em controlar a agressividade;
ü  dificuldade em iniciar e terminar tarefas e um desempenho irregular;
ü  défices na memória auditiva e visual sequencial.
 
Fonseca (1984) sugere que as crianças com DA podem apresentar várias problemáticas:
Ao nível emocional, as crianças com dificuldades de aprendizagem podem experimentar sentimentos de exclusão, de rejeição, de perseguição, de insucesso, tendo um auto-conceito frágil. A repetição de situações de insucesso pode levar à criação de resistências e fobias em relação às tarefas educacionais (Fonseca, 1984). Podem também evidenciar sinais de impulsividade e falta de controlo, falta de discernimento e de percepção social, sem planificação de condutas, têm dificuldade na antecipação das consequências dos seus comportamentos (Fonseca, 1984).
Ao nível dos processos cognitivos, as crianças com dificuldades de aprendizagem apresentam dificuldades na aprendizagem dos processos simbólicos da fala, leitura, escrita, aritmética, independentemente de lhes terem sido proporcionadas as condições adequadas de desenvolvimento, manifestando uma discrepância no seu potencial de aprendizagem (Fonseca, 1984).
Ao nível da percepção visual podem também verificar-se dificuldades ao nível da discriminação visual (problemas em reconhecer semelhanças e diferenças de formas, cores, tamanhos, letras, números); da figura-fundo (problemas de atenção selectiva e focagem, não identificando figuras sobrepostas); da constância da forma (problemas em reconhecer uma forma, independentemente de variações da posição, tamanho ou cor); na rotação de formas no espaço (dificuldade em identificar as mesmas formas invertidas ou rodadas no espaço); de associação e integração visual (problemas de organização da informação visual e na associação imagem-palavra); de coordenação visuomotora (problemas em coordenar a visão com os movimentos do corpo ou da mão na manipulação de objectos) (Fonseca, 1984).
Ao nível dos problemas de memória, estas crianças podem apresentar dificuldades de memorização visual (relação entre o todo e as partes mal organizada, com problemas no armazenamento da informação, dificuldade no reconhecimento de símbolos, dificuldades na sequencialização visual) e de memorização auditiva (dificuldade em compreender e lembrar instruções e direcções, dificuldade em processar, categorizar e classificar a informação, dificuldades semânticas e de sintaxe, inadequada utilização da linguagem com dificuldade na construção de frases e em lembrar-se espontaneamente de palavras) (Fonseca, 1984). A presença de sistemas de memória passivos, desregulados, esporádicos e episódicos de retenção de informação são característicos de crianças com dificuldades de aprendizagem (Fonseca, 1984).
Os processos psicolinguísticos podem ser divididos em receptivos (auditivos e visuais), integrativos (retenção, compreensão e associação) e expressivos (rechamada, programação verbal, oral, motora) (Fonseca, 1984). Os sinais evidenciados pelas crianças com dificuldades de aprendizagem nestes processos são: problemas na compreensão do significado de palavras e frases; problemas em seguir e executar direcções ou instruções; problemas de memória auditiva e de sequência temporal, simbólica e não simbólica; vocabulário restrito e limitado; frases incompletas e mal estruturadas; dificuldades na rechamada de informação, problemas na organização lógica e de ocorrências; dificuldades na formulação e ordenação das ideias; problemas na articulação e repetição de frases (Fonseca, 1984).